Habituamo-nos a viver tudo pela metade. A sentir tudo pela metade. Como se não merecêssemos mais do que a metade. Como se "o tudo" não fosse permitido.
Vivemos e sentimos pela metade e quando começamos, (in)conscientemente, a sentir "o tudo" no seu todo, assustamo-nos e deixamos cair metade pelo caminho. Não, não posso amar tanto, se não quem se lixa no fim sou eu. Não, não me posso apegar tanto, porque no fim todos acabam por virar as costas e seguir os seus caminhos e quem torna a ficar sozinho sou eu. Não, não me posso abrir tanto sobre o que sinto ou o que penso, porque ninguém compreende ou sente as coisas da mesma maneira que eu. Não não me posso queixar nem revoltar tanto, porque pensam que me estou a fazer de vitima e vitimas não merecem piedade, nem amor, nem compreensão. Vitimas são sempre vitimas e a as pessoas não estão nem aí para elas. Parece mal ser uma vitima. E afinal de contas, vitimas somos todos... tu passaste as tuas e cada um passou e passa a suas.
- Tu tens é de ser forte!
- Tu tens de lutar, TODOS os dias!
- E lutar às vezes não chega, tens de fazer ainda mais do que isso! Faz das tripas coração e bola pá frente!
A cada manhã, metade de mim sai da cama e começa o dia. E no decorrer do mesmo, só mostro metade de mim àqueles que me rodeiam. Metade? pff... nem um quarto de mim eles conhecem quanto mais metade. Mas sorri-se. Elogia-se, pergunta-se pela esposa ou pelos filhos ou o marido como vai?
Mente-se:
- Sim sim, estou óptimo, está tudo na maior. Pois é... Tem de ser. É a vida.
Trocam-se palavras sobre o tempo, o frio de rachar, o estar farto de chuva e nunca mais é verão ou então já não se aguenta tanto calor. Lamentamo-nos que nunca mais é sexta-feira ou resmungamos porque o fim de semana passou depressa e não deu para fazer nada. E vivemos, dia após dia... com a sensação de vazio.
Não há fé, amigo, familiar ou lugar que o preencham. Dizia alguém que a verdadeira morte não é quando se morre, mas sim o que morre dentro de nós enquanto estamos vivos.
Quase que me assalta o desespero de que a vida e eu não somos isto. Não merecemos isto. Eu deveria mercer um todo. Devia sentir-me parte de um todo. Mas não sinto. Não sou. Não pertenço. Não estou. É como se andasse todos os dias tapado com o manto da invisibilidade. E tem dias em que se eu sentir pela metade, sou um sortudo.